EMOÇÕES EM UM ANO DE PANDEMIA

Durante 365 dias monitoramos e analisamos mais de 200 mil respostas de brasileiros espalhados por mais de 4 mil municípios sobre a pandemia. Os 7,1 milhões de dados que extraímos destas respostas (divididos em vídeos, fotos, áudios e textos) nos mostraram que existe uma segunda epidemia se espalhando como consequência da pandemia do Covid-19 e da crise econômica: a disseminação de problemas de saúde mental. 

Esses mais de 7 milhões de dados coletados foram destaque na mídia, desde uma matéria que foi capa do dia na Exame na última sexta-feira (19), com análises que apontam que o medo do coronavírus deu lugar à preocupação e tristeza, até uma matéria que foi ao ar no Jornal da Cultura no sábado (20) sobre a saúde mental dos brasileiros, e como isso está afetando mais as mulheres, independente da classe social.

Como acreditamos em #Data4Good e pregamos o uso dos dados para o bem, estamos dividindo com você a nossa avaliação desse universo de dados depois de um ano de pandemia. Confira agora mesmo este ESTUDO EXCLUSIVO

Além disso, fizemos uma entrevista exclusiva com nossa diretora Carol Dantas sobre as emoções dos brasileiros neste um ano de pandemia. Olha só o resultado: 

Behup: Como você enxerga no geral as emoções dos brasileiros durante a pandemia? Quais os sentimentos que prevalecem?

Carol Dantas: As 4 emoções que mais oscilaram e mais relatadas ao longo da pandemia foram as de medo, preocupação, tristeza, felicidade e interesse, que juntas tiveram presença entre 66% a 71% dos 52 mil relatos coletados ao longo de 52 semanas (de 24/03/20 a 05/03/21). O que observamos foi que emoções mais negativas como medo e preocupação tiveram um pico no início da pandemia e desde então apresentaram uma tendência de queda, só voltando a subir nas últimas duas semanas da série histórica quando começaram o anúncio de um novo lockdown. É interessante notar que essas emoções não correlacionam com a curva de contágio e mortes por covid.

Já a felicidade percorreu o caminho inverso, como esperado, e atingiu picos no período de festas de final de ano. Aqui vale ressaltar dois pontos: havia uma expectativa alta sobre a vacina e a esperança de que 2021 seria de fato um ano melhor. O que, obviamente, não está se concretizando tanto pelo atraso da vacinação como pelo aumento de contágio e mortes. Por fim, a tristeza é uma emoção que se manteve oscilando em patamares altos, sempre acima dos 13% de presença nas narrativas.

Behup: Qual a diferença dos sentimentos das pessoas em Março de 2020 e Março de 2021?

Carol Dantas: Em março do ano passado, prevaleciam o medo e a preocupação. Atribuo essas emoções à incerteza da época sobre praticamente tudo: comportamento do vírus, como fazer lockdown, quanto tempo ficaríamos em casa e os impactos econômicos e em empregos. Em fevereiro deste ano, a emoção que prevalecia era a felicidade. O medo estava nos níveis mais baixos da série histórica, mesmo com a curva de contágio crescente. O anúncio de hospitais lotados e os anúncios de um novo lockdown mudou a tendência e já começamos a observar o aumento do medo novamente, porém ainda bem abaixo do início da pandemia.

Behup: Esses sentimentos são diferentes se analisarmos os dados por gênero ou classe social?

Carol Dantas: Novamente o medo teve a maior diferença por gênero ao longo de todo o ano pandêmico, mas, ainda que em menor grau, observamos os relatos femininos mais carregados de tristeza, preocupação e cansaço. O que mais me impressionou ao longo da série e no estudo final de conclusão é que as diferenças por gênero foram mais relevantes que as diferenças por classe social, confirmando as hipóteses levantadas ainda no início da pandemia: que as mulheres carregam com o maior fardo da situação pandêmica. Elas relatam a maior perda de rendimentos, maior solidão, maior medo de contágio não apenas próprio mas de familiares e as duplas e triplas jornadas, especialmente com a falta de escolas. Enfim, os mais de 52 mil relatos em áudios que recebemos confirmam uma situação dramática para as brasileiras.

Behup: Como a behup consegue identificar e entender esses sentimentos?

Carol Dantas:  Desenvolvemos uma tecnologia chamada Emotion AI, uma inteligência artificial para a detecção de emoções em discursos em português. É o primeiro na nossa língua e desenvolvido para entender as emoções dos brasileiros. Por meio do PiniOn, nosso aplicativo de crowdsourcing, perguntamos a mil pessoas por semana, de forma bastante aberta, como elas estavam se sentindo e pedimos para elas enviarem suas respostas em áudio. Essas respostas foram transcritas por meio de Speech-to-text (outra AI de linguagem) e processadas com nosso algoritmo de Emotion AI. Assim chegamos aos números semana a semana.

Behup: Quais as perspectivas para o futuro em relação as emoções dos brasileiros? Quais sentimentos você acredita que teremos nos próximos meses?

Carol Dantas: Esperamos uma escalada do medo e queda na felicidade. A curva realmente já se inverteu, mas devemos ficar ainda abaixo dos níveis do início da pandemia. Muito dependerá do avanço da vacinação, da extensão das restrições de abertura de atividades econômicas e das escolas e também da lotação de hospitais.

 A tristeza, que nunca baixou muito,  já aumentou um pouco e isso deve se manter por um tempo mais prolongado. É algo que as empresas já observam em seus funcionários. Uma força de trabalho deprimida deve ser um dos principais desafios para uma reconstrução do país pós-pandemia.

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