loader

CORONAVÍRUS X FAKE NEWS: O que impacta na saúde mental dos brasileiros?

A OMS (Organização Mundial de Saúde) constatou que a pandemia do coronavírus está causando mais stress na população, e inclusive publicou um documento com um guia para cuidar da saúde mental.

É fato que conforme os casos de pessoas infectadas aumentam, também aumentam casos de pessoas com ansiedade e depressão sofrendo mais ainda com a situação. Quem já sofre com esses problemas e outros parecidos são especialmente propensos a passar momentos difíceis durante a crise. E a propagação de fake news (que estão se proliferando quase tão rapidamente quando o vírus do covid-19) não ajuda. 

À medida que as notícias e as especulações sobre a doença crescem, fica cada vez mais difícil distinguir o que é verdade e o que é fake news, e isso aumenta o medo e a insegurança da população. 

“As fake news tornam o medo perigoso se você acredita nelas. Se alguém nos diz que se curou do COVID-19 bebendo álcool adulterado enquanto estamos passando por um momento intenso e irracional de pura ansiedade, nosso medo nos instiga a tomar a mesma atitude. Foi assim que 27 iranianos morreram intoxicados na semana passada. Somos predispostos a tal comportamento, para nos proteger precisamos aprender a superar tais predisposições.”  alerta Attalya Félix, a Head de Neurociência da behup, que indica o quanto as fake news podem ser nocivas em momentos como o que estamos vivendo, aumentando o medo e o pânico.

“Alguns medos podem ser uma característica herdada (no sentido darwiniano da coisa), mas com certeza a maioria dos medos que sentimos hoje são aprendidos, um consenso entre cientistas cognitivos. E ele não precisa ser aprendido por experiência própria. Ao vermos notícias e mais notícias de tragédias e sofrimento relacionados ao coronavírus, aprendemos a ter medo dessa ameaça.” afirma a neurocientista.

O time de operações da behup utilizou a metodologia exclusiva, o Messages, para descobrir tendências de conteúdos que estão sendo compartilhados pelo Whatsapp e reuniu informações que mostram um aumento de notícias referentes ao Covid-19 entre as milhares de mensagens que nos foram compartilhadas nesses últimos 10 dias. 

“Até o momento, o que mais nos tem chamado a atenção é que grande parte das pessoas considera os conteúdos verdadeiros, e ao analisarmos os casos vemos que existe uma quantidade expressiva de fake news”, comenta Federico Sader, CEO da behup. “Apesar de diversos conteúdos claramente falsos terem sido enviados, 79% deles foram classificados como sendo verdadeiros pelos usuários. 13% não souberam classificar e 8% foram considerados falsos” acrescenta.

Também observamos que os grupos de famílias são os mais suscetíveis a fake news no WhatsApp, e também onde mais compartilham informações sobre o coronavírus, com 40% do conteúdo. Porém, é entre os amigos que as informações repassadas tem maior credibilidade: 85% das pessoas acreditam mais em informações passadas pelos amigos versus 77% que confiam mais nas informações dos familiares. 

Com toda essa informação sendo repassada, será que o excesso de fake news colocaram a sociedade em uma espécie de paranóia coletiva? Attalya explica que no caso da pandemia do coronavírus não é bem assim, e muitas vezes o que é interpretado como paranóia é apenas um caso de ansiedade: 

“Não estamos sofrendo de uma paranoia em massa. A paranoia é sim um processo influenciado pelo medo, mas diferente do medo, nela o indivíduo tem crenças e às vezes alucinações, de natureza persecutória. Ou seja, de que alguém lhe persegue mesmo nas situações mais cotidianas.

Uma pessoa com tendências paranóicas pode sim viver em constante alerta e sofrimento por acreditar que há sempre alguém à espreita, esperando qualquer momento de desatenção para lhe contaminar com o COVID-19. Mas o caso não se estende a toda uma população. Não podemos dizer que usar máscaras sem sintomas ou comprar comida para algumas semanas seja paranoico, apesar de a atitude ser inadequada.

Convenhamos, não estamos enfrentando uma situação cotidiana, vivemos uma pandemia. Quando ainda não existiam muitas orientações disponíveis sobre as atitudes corretas a serem adotadas ou qualquer manifestação de diretrizes por parte do Estado brasileiro, estar minimamente preocupado e tomar algumas providências para sua proteção não poderia ser considerado um comportamento excêntrico, muito menos paranoico.

O que agiu ali foi a ansiedade, enquanto o medo propriamente dito é uma experiência que surge quando enfrentamos um perigo presente, nos permitindo uma resposta rápida frente a uma ameaça. A ansiedade nos prepara para algo que pode ou não ocorrer, é um medo sustentado, que dura um período longo de tempo. Certo nível de ansiedade é bem-vindo, nos permite pensar no futuro e nos precaver. Mas se você percebe que essa pandemia te dá um medo que não passa, um medo desconfortável e angustiante, procure ajuda.”

Mas será que as fake news podem ser usadas de certa forma para o bem?

E se o medo fosse uma espécie de mecanismo usado para ajudar as pessoas a não ficarem expostas ao perigo? Esse foi o caso de uma fake news que circula pelo WhatsApp e Facebook desde a última semana: uma imagem com um texto afirmando que idosos que estiverem nas ruas a partir do dia 20 de Março terão a aposentadoria suspensa por tempo indeterminado. Além disso, segundo a publicação, filhos e netos com mais de 18 anos também receberão uma multa de R$ 1.045. 

Esta notícia foi criada com o intuito de manter os idosos dentro de casa, pois além de ser o maior grupo de risco do covid-19, uma pesquisa da behup, realizada pelo antropólogo digital Juliano Spyer, mostra que pessoas acima de 60 anos também são as “mais teimosas” a respeito da quarentena, não aceitando ficar dentro de casa.  

“Parece contraditório, mas as pessoas mais vulneráveis ao covid-19 são também as que menos acreditam na sua letalidade. Os homens e mulheres mais velhos e de diversos extratos sociais estão rejeitando os dados científicos sobre o coronavírus para continuar saindo de casa.” afirma o antropólogo. 

Em casos como este, podemos até dizer que um pouco de medo é saudável, mas ainda devemos ter muita cautela, além de procurar informações reais e de qualidade sobre o que realmente está acontecendo. 

“Para se informar, dê preferência a veículos que trazem especialistas com informações técnicas sobre a pandemia. E mesmo se tratando de notícias qualificadas, não as procure constantemente. Dê uma olhada no noticiário por um período limitado de tempo, uma ou duas vezes por dia para checar as diretrizes gerais que o Estado dá à população por orientação dos órgãos de saúde.No entanto, vale ressaltar aqui: enquanto que para a maioria de nós o medo é suportável, para quase 10% da população brasileira ele é uma ameaça maior que o próprio vírus. Há aproximadamente 18,6 milhões de brasileiros com ansiedade segundo relatórios da OMS, uma condição mental que só não é menos incapacitante que a depressão.”  afirma Attalya Félix, nossa neurocientista.

O Brasil é o país mais ansioso do mundo, onde pelo menos 4 milhões de pessoas carregam algum transtorno obsessivo compulsivo. E para essas pessoas, focar em notícias na maior parte do seu tempo (sejam elas fakes ou não), não é uma boa pedida. É preciso procurar maneiras em manter a saúde mental durante o período de quarenta: E para isso, Attalya dá algumas dicas:

“Para mantermos nossa saúde mental nos tempos do COVID-19 é preciso manter uma rotina de exercícios físicos (mesmo que dentro de casa), tomar banho de sol diariamente, descansar e manter uma alimentação saudável. Isso você já deve ter ouvido muito, mas também é muito importante desprezar as notícias alarmantes dos grupos de whatsapp.

Se você conhece alguém que sofra de depressão, ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo ou qualquer outra condição mental, combine com essa pessoa check-ins em horários regulares, avalie em cada check-in se esta pessoa está tendo um comportamento estranho, se há indícios da permanência daquele medo excessivo ou qualquer outra atitude que possa prejudicar essa pessoa. Coragem, solidariedade e cautela são as melhores armas para manter a mente sã nas próximas semanas.”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *