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Identificando o Conservadorismo: da atualidade de volta para Flannery O’connor

“As duas garotas, não sabendo o que tinha acontecido com a mãe, perguntavam: ‘Pra onde vamos, mãe? Pra onde, hein?’ Achavam que ela só estava brincando, e que o pai, que a olhava pasmo, imitava gente morta. Não sabiam que ela passara por uma grande experiência, sendo afastada de tudo o que lhe pertencia no mundo. Mas tinham medo do asfalto cinza e oleoso à sua frente e repetiam sem parar, em voz cada vez mais alta: ‘Pra onde vamos, mãe? Pra onde, hein?’, enquanto a mãe, seu corpanzil arriado no assento do carro, os olhos vidrados, como que pintados de azul, parecia contemplar pela primeira vez as tremendas fronteiras de seu verdadeiro país.”

O trecho que você acabou de ouvir é do livro “Um Homem Bom é Difícil de Encontrar e Outras Histórias” de Flannery O’Connor, publicado em 1953 nos Estados Unidos.

UM HOMEM BOM E DIFICIL DE ENCONTRAR E OUTRAS HISTORIAS - 1ªED ...

Esse livro é diferente de tudo que já li. Sei que ter 29 anos de idade não pode implicar num acúmulo tão grande de livros lidos, mas já li bastante. Aliás, não me prendo a grandes clássicos nem exóticos contemporâneos, tendo a procurar experiências o mais diferentes possível, e ler O’Connor superou qualquer expectativa e qualquer sentimento de estranhamento que eu já tenha tido com qualquer outra literatura.

Do meu ponto de vista, o que torna esse livro tão estranho, num bom sentido, é que ele traz um tipo de interpretação muito peculiar sobre a vida de conservadores que dominavam a sociedade na década de 50, mas é um tipo de interpretação bem específica mesmo: uma interpretação feita por uma progressista, a autora Flannery O’Connor. Não deve ser muito óbvio classificar Flannery O’Connor como progressista. Muitos acadêmicos da área certamente têm toda a propriedade para discordar de mim, mas eu vou lhes dar algo a considerar: abordarei o conservadorismo, ou a falta dele, do ponto de vista da psicologia cognitiva.

Há pouco mais de 2 anos, eu estudava avidamente as características da ideologia conservadora para a primeira parte do meu Mestrado em Neurociência & Cognição. Desde lá e até hoje, tornou-se muito natural para mim identificar um perfil conservador, uma expressão de conservadorismo, ou qualquer traço de personalidade que conecte-se a um perfil mental conservador. É quase que involuntário: leio um trecho de uma matéria de jornal, escuto uma música, assisto a um discurso político e lá surge aquele pulso no cérebro que vem de forma completamente involuntária, como um sonar que apita toda vez que um barco entra em seu raio de alcance: “isso é conservador, aquilo é conservador, conservador, conservador, conservador”, chega a ser chato. Eu até considerei isso como uma espécie de viés mental a certa altura, tentava evitar, me questionava achando que eu estava exagerando e vendo conservadorismo em todo lugar, muito provavelmente até onde não tinha. Mas agora, distante daquela época e pensando de maneira mais reflexiva, talvez aquilo não tenha acontecido apenas porque eu estava mergulhada em textos para entender a ideologia conservadora, talvez tenha acontecido pelo fato de o conservadorismo ser uma ideologia política muito abrangente e presente em todos os lugares.

Enfim, vamos entender o que realmente faz de um conservador um conservador, lhe direi como identificar um conservador à moda cognitiva: de uma maneira bem simples, conservadores são definidos como pessoas que defendem a tradição, a hierarquia, a estabilidade e a ordem. Acho que isso não vai te ajudar a identificar um conservador no almoço de domingo da família. Não é muito prático, certo? Para tornar essa tarefa um pouco mais fácil precisamos contar com os trabalhos desenvolvidos por anos pelos cientistas e que agora podem ser aplicados para identificar conservadores no seu almoço de família. Esses cientistas, especialmente os cientistas cognitivos sociais, compuseram alguns questionários baseados nesses valores conservadores que eu mencionei acima, esses questionários, se aplicados, permitem identificar quais pessoas carregam tais valores. Claro que no meu cotidiano eu não saio aplicando questionário nas pessoas para saber se elas são ou não conservadoras, a maneira como eu as identifico é muito mais natural e inconsciente que isso. Vou já chegar lá. No laboratório os cientistas aplicam esses questionários que identificam conservadores em conjunto com outros questionários ou métodos experimentais que avaliam outros aspectos do comportamento, tem de tudo, desde sensibilidade a dor até gentileza e passando pelas mais variadas características do comportamento humano como: ter muitos utensílios de limpeza em casa, por exemplo. Eles comparam então se pessoas que pontuaram mais na escala conservadora tendem a se destacar mais em alguns desses comportamentos se comparadas às pessoas que pontuaram menos na escala conservadora. Em essência, o que é feito: através da escala conservadora os cientistas separam um grupo de conservadores, que pontuaram alto na escala, e um grupo de não-conservadores, que pontuaram baixo na escala. Esses dois grupos fazem experimentos comportamentais iguais e os cientistas observam qual o comportamento que acontece de maneira consistente no grupo dos conservadores e não acontece no grupo dos não-conservadores.

As pesquisas desse tipo que eu acho mais interessantes e que tornam muito mais fácil para mim reconhecer um perfil conservador são as que apontam diferenças entre estilos cognitivos. Esses estilos são um tipo de modelo de como a mente de cada pessoa funciona. Há muitas maneiras de se caracterizar o estilo cognitivo, dentre elas gostaria de chamar atenção à necessidade por fechamento cognitivo (ou need for cognitive closure, em inglês). Conservadores têm uma necessidade imensa por fechamento cognitivo. E o que diabos é fechamento cognitivo, você deve estar se perguntando. A necessidade por fechamento cognitivo pode ser sentida, por exemplo:

[toc toc toc toc toc – ___ ___]

Ou quando alguém começa uma frase e não termina, algumas pessoas sentem mais aflição, não se aguentam e completam a frase do outro, outras nem ligam. Cientistas acreditam que para os conservadores essa aflição seja mais forte.

Eu dei exemplos bem típicos e superficiais aqui, mas esse estilo cognitivo se estende por praticamente todos os aspectos da vida dos conservadores. Isso significa que suas crenças não podem ter buracos. Não podem ser incertas. Toda narrativa tem que ter início, meio e fim, tudo tem que ter uma causa e um porquê facilmente identificáveis, sem espaço para a dúvida. E é observando essas e muitas outras características que eu identifico o conservadorismo.

Dizem que não é à toa que a forma de pensamento dos conservadores é tão estranha e incompreensível aos não-conservadores e vice-versa. Eles ocupam polos opostos de ideologia, o que deve de alguma forma refletir também no distanciamento de seus estilos cognitivos. E é por isso que o livro de Flannery O’Connor é tão especial para mim. As suas histórias não têm nenhum fechamento cognitivo, acho que se existe uma história super-fechada e bem polida, Flannery O’Connor nos dá exatamente sua antítese. E o que torna mais interessante ainda: suas histórias sem nenhum fechamento cognitivo retratam a vida de pessoas hiper-conservadoras. Deixe-me convencer você de que essas pessoas são conservadoras. Outra característica extremamente forte em conservadores é o sentimento de pertencimento a um grupo, que os une através de suas características semelhantes. E que os fazem, em defesa daqueles valores de tradição e estabilidade, tornarem-se antipáticos a outros grupos, tudo que é diferente é tido como ameaça:

“Mr. Shortley se lembrou da imagem, por ela vista certa vez em um telejornal, de um quartinho repleto de corpos mortos e nus, uns por cima dos outros, braços e pernas emaranhados, cabeças pendentes a despontar aqui e ali do montão, tal como um joelho ou um pé, mãos levantadas a agarrar-se em nada ou uma parte que deveria estar coberta sobressaindo em riste. Antes de o espectador se dar conta de que era tudo real e assimilar o que via, a imagem mudava e uma voz cavernosa se alteava a dizer: ‘O tempo não para!’ Era o tipo de coisa que estava acontecendo todos os dias na Europa, onde não tinham progredido tanto quanto nos Estados Unidos, e Mr. Shortley, lá em seu posto de observação, bruscamente intuiu que os Gobblehooks, como ratos cheios de pulgas tifoides, bem poderiam ter trazido consigo, mar afora, diretamente para aquela fazenda, tais tendências homicidas, já que vinham de um lugar em que faziam com eles tantos horrores assim, quem garantiria que não estavam dispostos a fazer o mesmo com os outros? O alcance e a amplitude da questão deixaram-na bastante abalada. Sua barriga sacudiu, como se tivesse ocorrido um ligeiro tremor no coração da montanha, e automaticamente ela desceu da elevação onde estava e caminhou para ser apresentada a eles, como que decidida a descobrir de imediato do que seriam capazes.”

Se você deixar-se provocar pelos contos de Flannery O’Connor, apreciará em seus personagens, pessoas que, apesar de suas crenças fechadas cognitivamente, terão as vidas expostas como nada mais que uma linha aberta no espaço-tempo, sem início, sem fim, sem sentido. Mas será que é a vida delas que não tem sentido, ou é a narradora que com sua mente progressista não consegue enxergá-los? Acho que nunca saberemos. Desafio os conservadores a encontrarem o sentido nessas vidas. 

Outros leitores desse livro relatam que ele é lido e relido, na busca de um sentido, uma moral, mas as releituras não têm sucesso, nada está lá além de cruas cenas da vida, nada além da inevitabilidade da tragédia humana daqueles que não têm lugar ao mundo. O livro me  impressionou de diversas formas, não só por esse conflito de narrativas ideológicas. É meu primeiro romance da Flannery, é meu primeiro gótico sulista. Traz um impressionismo latente em suas construções, pintando os lindos quadros da natureza que também nenhum sentido nos entrega. E o desafio de tirar leite (o leite da moral ou do sentido) dessa pedra nunca se encerra, ainda está aberto àqueles que desejam encará-lo.

Se alguém conseguir tirar o leite dessa pedra, por favor me contacte, eu adoraria estar errada.

Attalya Felix

Head of Neuroscience da behup

Attalya se tornou cientista por gostar de pensar sobre coisas impossíveis e sobre a realidade. Mestre em Neurociência e Cognição pela Universidade Federal do ABC, ela se descreve como “perigosamente atraída por navegar o desconhecido”, o que a torna a pessoa ideal para encabeçar nosso time de neurociência.

1 Comment

  1. Sonia Leme

    Attalya, adorei o seu artigo.
    Claro e objetivo, ao mesmo tempo motivador e intrigante.
    Quero ler esse livro asa.

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