loader

Sobre o tempo by Attalya Felix

Nesse artigo você vai aprender:

  1. Quais são as 3 setas do tempo apresentadas por Stephen Hawking em seu livro Uma breve história do tempo;
  2. Qual a cara de um raster plot;
  3. Quais as principais teorias cognitivas sobre a percepção temporal;

Este artigo é sobre tempo. Um dos resultados das intersecções casuais entre a minha hiperatividade e um livro chamado O sentido de um fim, de Julian Barnes. Logo nas primeiras linhas da leitura presumi que o tema central do livro era memória, mas ao final, revisando os trechos que mais me trouxeram inquietação, tive a impressão de que ele falava sobre tempo. Eu duvidei um pouco da minha própria percepção acerca disso: afinal, o livro realmente trata mais sobre tempo do que memória? Ou eu que tenho uma tendência a gostar mais das partes em que ele fala sobre tempo?
Julian Barnes questiona nossa capacidade de recordar das coisas que vivemos como elas realmente são e confesso que isso deve ter fomentado um grau maior de dúvida em mim. Decidi então fazer uma rápida análise de dados sobre o livro, o que ela me revelaria?Fiz um raster plot de quantas vezes a palavra “memória” e “tempo” apareciam ao longo do romance:

Olhando os raster plots não temos como negar que, de fato, a palavra “tempo” surge mais vezes que “memória” durante o livro. Na verdade, há a possibilidade de que “tempo” como objeto não seja tão mencionado afinal, e que eu ainda esteja enganada. Mas de qualquer forma é interessante ver como sua presença é forte nas expressões que usamos cotidianamente (anytime, every time, all the time, time to time).
O tempo não é um fascínio literário apenas, Stephen Hawking listou em seu livro, Uma breve história do tempo, que há 3 setas do tempo:


(1) A seta termodinâmica
A seta termodinâmica aponta para a direção de crescimento da desordem. Ok, física. Para ilustrar melhor esse conceito vou fazer uma ponte com uma série que tem uma fotografia perturbadoramente linda: Hannibal. O protagonista, um psicopata refinado, incorpora a ideia do tempo termodinâmico em sua narrativa na alusão feita à fragmentação da mente de Will Graham (seu melhor amigo) e à morte de Abigail Hobbs, protegida de Will.
Hannibal despreza deus, e quer ser o deus de Will. Ele desafia a natureza e tenta fazer a seta termodinâmica do tempo apontar na direção inversa. Ele usava uma xícara como alusão à essa seta: se uma xícara intacta cai no chão e quebra, vemos a passagem do tempo termodinâmico, que inicia no ponto de menor desordem (xícara intacta) e aumenta conforme a xícara se quebra até o ponto de maior desordem (estilhaços imóveis no chão).

No entanto, a seta termodinâmica do tempo não corre no sentido inverso: pedaços de estilhaços imóveis no chão não se transformam numa xícara intacta. Hannibal consegue recuperar a mente fragmentada de Will e a vida de Abigail Hobbs, erroneamente dada como morta. Nesse momento ele se vê como deus, iludindo-se sobre o controle que poderia ter sobre o destino daquelas duas pessoas. Mas a xícara quebrada não volta à sua forma intacta, e a confusão psicológica causada em Will e Abigail certamente aumentou a desordem da mente deles, a seta termodinâmica continuou fluindo na mesma direção.


(2) A seta psicológica
A seta psicológica do tempo tem o mesmo sentido que a seta termodinâmica: nossas memórias se acumulam conforme testemunhamos as mudanças que o aumento de desordem causa no mundo (ou assim cremos). Quanto mais processos ocorrendo em nosso cérebro (como a percepção de um evento no Universo, como a xícara quebrando, como o trauma desaparecendo, como alguém tido como morto voltando à sua vida), maior é a desordem acumulada, maior o consumo de energia, maior a memória.

(3) A seta cosmológica
Essa seta é mais estranha, ela não tem uma direção certa, pode variar. Sua direção depende da direção para a qual o Universo flui: se o Universo está expandindo-se ela vai para um lado, se o Universo está contraindo-se ela vai para o outro lado.
[Para refletir antes de dormir: em qual dos dois casos acima a seta cosmológica do tempo estaria alinhada na mesma direção das outras duas setas (psicológica e termodinâmica)? Por quê? Se você não perder a noite de sono na primeira pergunta porque a resposta é muito óbvia para você, vai perder a noite pensando na segunda pergunta. Eu gosto de tirar o sono das pessoas às vezes, não há de quê.]
Aqui vamos nos ater à seta psicológica do tempo, aquela abordada em O sentido de um fim. Há uma área de estudo em cognição chamada timing. Nela se estuda, dentre outras coisas, a percepção humana sobre a passagem do tempo, como ela acontece e onde acontece. Sabemos que nossa percepção temporal é influenciada por funções cognitivas como memória e atenção, assim como motivações, emoções e até por nossa personalidade. Por exemplo, se você fica o tempo inteiro olhando o relógio, percebe o tempo passando mais devagar. Se você acha que fez muita coisa num espaço curto de tempo, vai achar que se passou mais tempo do que na realidade passou. Mas ainda há muito mistério sobre como percebemos o tempo passar.
Bom, não temos muita certeza de onde a duração de tempo é processada. Os dados acumulados por meio de experimentos ainda são bem contraditórios. O que é uma ótima notícia aos interessados em desbravar a mente humana! O que temos de pistas até agora, é que as seguintes áreas estão provavelmente envolvidas nesse processo:

Além de circuitos fronto-estriatais (Harrington et al. 2004a; Hinton & Meck 2004), que são muito difíceis de delimitar. Recomendo uma aula de neuroanatomia para os interessados.


Que modelos existem sobre o processamento desse tipo de percepção?
De maneira geral, há 2 tipos de modelos cognitivos sobre como estimamos o tempo. O modelo de estimação prospectiva e o modelo de estimação retrospectiva:


(1) Estimação prospectivaSegundo esses modelos, nós julgamos qual é a duração do intervalo de tempo que estamos experimentando. Isso implica que nós teríamos um tipo de relógio interno que produziria uma série de pulsos, esses pulsos seriam armazenados numa espécie de acumulador que estaria localizado na nossa memória de curto prazo. O número de pulsos acumulados seriam então comparados com uma biblioteca virtual de pulsos, localizados na nossa memória de longo-prazo. Na última fase do processamento, a quantidade de minutos ou segundos correspondentes àqueles pulsos armazenados na memória de curto prazo é traduzida, e então a nossa percepção consciente da passagem de tempo se dá.

(2) Estimação retrospectivaSegundo os modelos de estimação retrospectiva, nossa percepção temporal se dá após realizarmos alguma atividade (por exemplo, um treino na academia). Só depois que a atividade acaba é que tentamos estimar quanto tempo se passou. Ou seja, o julgamento se dá após a passagem total do tempo a ser estimado. Além disso, nós estimamos o tempo dada a quantidade de de conteúdos processados e armazenados na nossa memória (por exemplo, minha memória indica que eu processei 10 minutos de HIT e 3 séries de 8 exercícios). Portanto, quanto mais mudanças na nossa memória, mais acúmulo de processos, e maior a nossa percepção de duração do tempo.Julian Barnes parece ter lido um pouco sobre percepção temporal para escrever seu romance. Quando jovem, o protagonista de seu livro achava que uma vez que a vida adulta chegasse, cheia de acontecimentos, o tempo se aceleraria:
“Naquela época, nos imaginávamos presos numa espécie de gaiola, esperando para sermos soltos na vida. E quando esse momento chegasse, as nossas vidas – e o próprio tempo – iriam se acelerar.Como poderíamos saber que nossas vidas já tinham começado, que algum benefício já havia sido obtido, algum dano já havia sido causado? E, também, que seríamos soltos numa gaiola apenas maior, cujas fronteiras a princípio seriam imperceptíveis.”
Eu vejo a gaiola como uma limitação de ações, e portanto, com um acúmulo reduzido de memórias. Quando se é adulto, as possibilidades de ações são expandidas, porém ainda são limitadas. O ser humano como um pássaro preso na gaiola, não tem muito o que fazer, o tempo é seu, e passa lento. A esperança de uma gaiola maior onde o tempo possa ser compartilhado e dividido com o mundo possibilita também mais ações. Porém, se o tempo passa mais rápido, assim também passa a vida. E o êxtase de asas abertas para alçar vôo numa gaiola mais ampla, se olhado à distância no espaço-tempo, descreve o início de um mergulho de um Kamikaze para a morte. Talvez por isso quando somos jovens, antes do mergulho adulto, nos sintamos infinitos e imortais, pois a limitação de ações parece fazer o tempo se arrastar lentamente.

Sobre o que mais se fala nesse livro bão?

  • Memória autobiográfica;
  • Suicídio;
  • Juventude/velhice;
  • Historiadores e sua história;

Cool links:

Attalya Felix

| Head of Neuroscience da behup

Attalya se tornou cientista por gostar de pensar sobre coisas impossíveis e sobre a realidade. Mestre em Neurociência e Cognição pela Universidade Federal do ABC, ela se descreve como “perigosamente atraída por navegar o desconhecido”, o que a torna a pessoa ideal para encabeçar nosso time de neurociência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *